Nós, e os nossos Orixás

fé africana

 Muitas vezes, já por estarmos acostumados, devido a experiências vividas pelo contato com demais religiões, trazemos conosco um certo receio no contato para com o nosso Orixá. Certo respeito supérfluo, nada mais é que um temor de um suposto castigo que possamos receber, caso alguma palavra dita, ou um ato feito sem pensar, possa ofender o nosso Orixá. Devido isso, muitas pessoas repreendem sua própria natureza, seja ela as vezes explosiva, impulsiva… ou seja, deixam de ser elas mesmas para entrar em contato com seu Orixá.

 Essas pessoas sentem-se com mais liberdade de desabafar com um amigo, um familiar ou até mesmo um estranho. O nosso Orixá, é a nossa natureza. Podemos mentir, ocultar algo de qualquer pessoa, exceto deles, pois no fundo, eles vão saber que o que está sendo dito, não é verdade.

 Quando falarmos com nossos Orixás, temos de ser verdadeiros, ou melhor, não “temos” nada. Não precisamos agradá-los com “palavrinhas” meigas, porém muitas vezes falsas, por obrigação; não precisamos nos preocupar com o que está sendo desabafado, desde que seja verdadeiro, desde que venha do fundo do coração, pois eles, mais do que ninguém, mais do que nós mesmos, vão saber nos compreender e auxiliar.

 Quando falares com os teus Orixás, fala, como se fosse com teus pais. Com eles não precisas temer o que possam pensar de ti ou castigos, é óbvio que deve haver respeito, mas não medo. Sejam naturais, conversem como se conversassem com a pessoa de maior intimidade, pois a conversa pode ser em pensamento e em qualquer lugar, mas se for sincera, certamente teus pedidos serão atendidos, e sentiras a presença do teu Orixá com muito mais força.

Àse!

Ìjubà

Ìjubà (invocação às divindades):

Ọlọjọ Òní, mo júbà
Ìbà á şę
Ìlà o òrún, mo júbà
Ìbà á şę
Ìlà o òrún, mo júbà
Ìbà á şę
Àríwá, mo júbà
Ìbà á şę
Gúúsù, mo júbà
Ìbà á şę
Àkọdá, mo júbà
Ìbà á şę
Aşędá, mo júbà
Ìbà á şę
Ìlę, mo júbà
Ìbà á şę
Èşù Ọdàrá, mo júbà
Ìbà á şę

Senhor deste dia, meus respeitos
Possa isto ser aceito
Ao leste, meus respeitos
Possa isto ser aceito
Ao Oeste, meus respeitos
Possa isto ser aceito
Ao norte, meus respeitos
Possa isto ser aceito
Ao sul, meus respeitos
Possa isto ser aceito
Ao primeiro ser criado, meus respeitos
Possa isto ser aceito
A terra meus respeitos
Possa isto ser aceito
Exú do bem, meus respeitos
Possa isto ser aceito

Ọlọjọ Òní, mo júbà o
Ọlọjọ Òní, mo júbà o
Ę ję mí jíşę
Ę ję mí jíşę
Ti Olódùmarè ràn mi
Bí Ęlęmi kò gbà á
Bí Ęlęmi kò gbà á
Olódùmarè àşę
Olódùmarè àşę
Olódùmarè a ràn rere
Sí i o

Senhor deste dia, meus respeitos, eu o saudo
Senhor deste dia, meus respeitos, eu o saudo
Deixe-me cumprir a missão
Deixe-me cumprir a missão
Da qual Olódùmarè me encarregou
Se o senhor desta vida não impedir
Se o senhor desta vida não impedir
Olódùmarè nos dê sua aprovação
Olódùmarè nos dê sua aprovação
Possa Olódùmarè mandar sua benção
Para o nosso trabalho

Lenda – O amor verdadeiro

“Yewa era uma princesa doce e linda. Todos os homens de seu reino duelavam entre si, desejando conquistar o seu amor, porém nenhum lhe agradava.

Com o tempo, outros homens de outros reinos começaram a surgir, pois todos comentavam sobre a beleza de Yewa. As mulheres a invejavam, e os homens começaram a matar uns aos outros, tentando exibir sua força e superioridade para Yewa, obcecados pelo desejo que ter a princesa como sua esposa .

Um dia, todos invadiram aos berros, socos e empurrões o palácio de Nanã, mãe da jovem, ordenando que Yewa escolhesse seu futuro marido e findando então a disputa. Sem aguentar ver tanto sangue, Yewa transformou-se em uma poça de água. Todos então pararam e observaram a água que evaporou e subiu para o céu cor de rosa com a forma de um coração. Naquele momento, a jovem mostrou para os homens que o amor não se conquista nem se compra, e sim, surge naturalmente em nossas vidas.”

Lenda – Oxumaré

“Nanã desejava muito ter um filho de Oxalá, concebeu o primogênito Xapanã, mas como já foi contado, teve de ser abandonado por ela.

Nanã então consultou Ifá, e este lhe disse que numa segunda tentativa ela daria a luz a um filho lindíssimo. Porém, preveniu de que esse também não ficaria com ela.

Ignorando a prevenção de Ifá, Nanã estava muito feliz com a gravidez, até o momento do parto, quando deu a luz a um belo ser que recebeu o nome de Oxumaré. Durante um tempo, Oxumaré tomava a forma de arco-íris, cuja função era levar a água para a morada Oxalá, que morava no orun (no céu). Depois de cumprida a tarefa, ele voltava a terra por um tempo assumindo a forma de uma cobra.”

Lenda – Iemanjá e seus inimigos

“Iemanjá adorava passar horas e horas admirando sua beleza diante de seu espelho, pois gostava de si mesma. Um dia, estava sozinha e inimigos horríveis a perseguiam, Iemanjá correu até a beira do mar, e sem saber o que fazer, apanhou seu espelho.

Quando seus inimigos chegaram e viram o próprio reflexo refletido no espelho, assustaram-se e fugiram.”

Encontramos algo semelhante no dia a dia, nas pessoas que gostam de criticar a vida dos outros, mas quando se deparam com a sua própria, assustam-se muitas vezes.

Lenda – Sem Oxum, não há vida

“Logo no início da criação, comandados por Oxalá, os orixás masculinos organizavam reuniões para decidir o destino do mundo, sem a presença das divindades femininas.

Oxum ficou irritada, pois quem faz parte do mundo, deveria decidir sobre ele. Portanto, para mostrar sua importância, secou suas águas, tornando o solo infértil e tornou as mulheres estéreis.

Desesperados, e sem compreender, os orixás masculinas consultaram Olodumaré, pedindo seu auxílio. O deus supremo então lhes explicou que sem Oxum não haveria vida na terra, pois é ela a fecundidade, e por isso, deveria também participar nas decisões do mundo.

Os orixás então pediram perdão a Oxum e que ela aceitasse participar das reuniões. Oxum então derramou toda sua graça sobre a Terra, tornando as mulheres e a terra fértil novamente.”

Lenda – Segredo de Ossain

“Xangô não aceitava o fato de que somente Ossain possuía o segredo das folhas, sem compartilhar com nenhum outro orixá, então foi falar com sua esposa Iansã. A deusa dos ventos então agitou sua saia, causando uma forte ventania, espalhando as folhas para o reino de todos os orixás.

Ossain assistiu suas folhas serem divididas entre as divindades sem intervir, pois eles podiam tê-las, mas teriam de pedir à ele a liberação de seus poderes sempre que precisassem usá-las.”

Lenda – Filhos de Xangô devem vestir branco

“Oxalá resolveu visitar seu filho Xangô, a divindade da justiça e do fogo. Ao se aproximar do reino de Xangô, Oxalá viu o cavalo que havia dado de presente para o filho, e resolveu levá-lo de volta, acreditando que o animal estivesse perdido. Quando Oxalá começou a caminhar, guiando o cavalo, soldados de Xangô o impediram e o prenderam, pensando que fosse um ladrão.

Desde então, o reino de Xangô passou por dias difíceis, e o rei resolveu se consultar com um babalawô, descobrindo então que fizera uma grande injustiça, que havia um prisioneiro inocente em seus domínios. Ao ver que o prisioneiro era Oxalá, seu pai; Xangô ajoelhou-se pedindo seu perdão e o perguntou o motivo que o manteve calado todo esse tempo.

‘Tu Xangô, és a divindade da justiça, antes de prender alguém, deverias tê-lo visto, e ouvido sua parte da história.’ Disse Oxalá, mas perdoou o filho, salvando o reino de Xangô.

Deste dia em diante, Xangô decretou que usaria o branco em homenagem ao seu pai no dia dele e que seus descendentes deveriam fazer o mesmo. Por isso toda sexta-feira, dia de Oxalá, os filhos de Xangô principalmente devem vestir o branco em homenagem a divindade da paz.”

Lenda – Iansã, a viajante

Iansã era uma jovem muito bonita, e sempre gostou de aprender coisas novas, por isso, viajava de reino em reino, em busca de aventuras e novos conhecimentos.

No reino de Ogum, Iansã aprendeu com ele a como manejar e forjar uma espada, aprendeu os segredos de uma guerra.

Com Oxósse, Iansã aprendeu a caçar e a tirar a pele de animais. Com Bará, aprendeu a magia, magia que usou para transformar-se em búfalo, ao vestir a pele de um.

Logunedé ensinou Iansã a pescar, e Oxaguiã lhe ensinou a como usar um escudo para se defender nas batalhas.

Com Oxum, aprendeu o segredo da riqueza, e a magia das águas.

Com Xapanã, Iansã aprendeu a como conviver com os mortos, os eguns, e a controlá-los.

E por fim, Xangô dividiu com ela o segredo dos raios, mas também, Iansã conheceu algo que jamais imaginou conhecer, o amor verdadeiro, a paixão que se fez entre ela e Xangô.

 

Lenda – Olodumaré e os sete Príncipes

“No começo, a terra não existia… No alto era o céu, embaixo era a água. Então, Olodumaré, o senhor e o pai de todas as coisas… criou, inicialmente, sete príncipes coroados… Em seguida… sete sacos nos quais haviam búzios, pérolas, tecidos e outras riquezas. Criou uma galinha e vinte e uma barras de ferro. Criou, ainda, coberto por um pano preto, um pacote volumoso cujo conteúdo era desconhecido. E, finalmente, uma corrente de ferro muito comprida, na qual prendeu os tesouros e os sete príncipes. Depois, deixou cair tudo do alto do céu…

Do alto de sua morada divina, Olodumaré jogou uma semente que caiu na água. Logo, uma enorme palmeira cresceu até os príncipes, oferecendo-lhes um abrigo grande e seguro, entre as suas palmas. Os príncipes se refugiaram ali e se instalaram com suas bagagens.

Eram todos príncipes coroados e conseqüentemente, todos queriam comandar, por isso, resolveram separar-se. Seus nomes eram: Olówu, que se tornou rei do Egbá; Onisabe, que setornou rei de Savé; Rangun, que reinou em Ila; Óòni, que foi soberano de Ifé; Ajero, que se tornou rei de Ijerô; Alákétu, que reinou em Kêto; e o último criado, o mais jovem, Òrànmíyàn, que se tornou rei de Oyó.

Antes de se separarem, os sete príncipes decidiram reparti entre eles a soma dos tesouros e das provisões que o Todo-Poderoso lhes havia dado. Os seis mais velhos pegaram os búzios, as pérolas, os tecidos e tudo o que julgaram precioso ou bom para comer. Deixando apenas para o mais moço o pacote de pano preto, as vinte e uma barras de ferro e a galinha…

Os seis príncipes partiram à descoberta nas folhas de palmeira. Quando Oranian ficou sozinho, desejou ver o que continha o pacote envolto no pano preto. Abriu-o e viu uma porção de substância preta que ele desconhecia… sacudiu o pano e a substância preta caiu na água e não desapareceu. Formou um montículo. A galinha voou para pousar em cima. Ali chegando, ela pôs-se a ciscar essa matéria preta, que se espalhou para longe. O montículo se ampliou e ocupou o lugar da água. Eis aí como nasceu a terra.

Oranian apressou-se em descer para o domínio, assim formado pela substância negra, e tomou posse da terra. Por sua vez, os outros seis príncipes desceram da palmeira. Quiseram tomar a terra de Oranian,como já lhe haviam tomado, na palmeira, sua parte dos búzios, das pérolas, dos tecidos e dos alimentos, mas Oranian tinha armas; suas vinte e uma barras de ferro haviam se transformado em lanças, dardos, fechas e machados.

Com a mão direita, ele brandia uma longa espada, e lhes dizia:

‘ Esta terra é só minha. Lá em cima, quando me roubaram, vocês me deixaram apenas esta terra e este ferro. E é com o ferro que defenderei a minha terra! Vou matar todos vocês.’

Os seis príncipes pediram clemência, rastejaram aos pés de Oranian. Pediram-lhe que se desse uma parte de sua terra para que pudessem viver, e continuarem príncipes… Oranian poupou-lhes a vida e deu-lhes uma parte da terra. Exigiu apenas uma condição: esses príncipes e seus descendentes deveriam permanecer sempre seus súditos e de seus descendentes; deveriam, todo ano, vir presta-lhe homenagem e pagar os impostos na sua cidade principal, para demonstrar e lembrar que eles tinham recebido, por condescendência, a vida e sua parte de terra. Eis aí como Oranian tornou-se rei de Oyó e soberano da nação iorubá e, de toda a terra.”